Coronavírus: “Na história da humanidade, a longo prazo, existe uma espécie de lógica de contenção”, argumenta Jean-Paul Demoule

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  • Jean-Paul Demoule, membro pré-histórico e honorário do Instituto Universitário de França, trabalhou na questão da pré-história do confinamento, decretada pela segunda vez em 30.li>Segundo ele, com a invenção da agricultura, as sociedades humanas tornaram-se sedentárias e gradualmente confinadas. Uma evolução que continua nas nossas sociedades modernas até este auge do duplo confinamento de 2020./ul>

Em 30 de Outubro, a França entrou no seu segundo confinamento, sem saber muito quando sairia. Uma experiência sem precedentes que não seria bem assim se olhássemos para longe no retro. “Na realidade, a história da humanidade poderia ser, apesar das aparências da globalização, a do seu confinamento progressivo, desde o nomadismo do início do período paleolítico até às concentrações urbanas actuais”, escreve o pré-histórico Jean-Paul Demoule na sua Tract of Crisis* publicada por Gallimard. Assim, entrevistámos este especialista nas primeiras sociedades humanas para descobrir como o homem se tornou gradualmente confinado.

Como chegou a trabalhar nesta hipótese de confinamento progressivo?

Um dos editores Gallimard com quem estive em contacto para a próxima publicação de um livro contactou-me para a série Tracts of Crisis, dizendo: “Devia pensar na pré-história do confinamento”. O que na verdade comecei a fazer e disse a mim próprio: “mas sim, no final, se voltarmos à história da humanidade, onde partimos de sociedades nómadas de caçadores-colectores que são obrigados a deslocar-se a toda a hora para encontrar os seus alimentos, e se olharmos para ela a longo prazo, sim, existe uma espécie de lógica de confinamento, mesmo que possa haver excepções, uma vez que qualquer lei histórica tem necessariamente excepções. Foi assim que me surgiu.

Como explica esta evolução? Está relacionada com factores económicos?

Existe uma lei bastante banal entre todos os seres vivos que é a lei do menor esforço. Quanto mais se mexe, mais energia se consome, por isso é mais fácil mover-se menos. Há cerca de 12.000 anos, no final da última era glacial, que durou pouco mais de 100.000 anos, o Homo sapiens viu-se pela primeira vez na sua evolução num ambiente que permitia a agricultura e a criação de animais. Nessa altura, em diferentes partes do mundo, isolados uns dos outros, mas exactamente ao mesmo tempo, vários grupos de caçadores-colectores começaram a inventar a agricultura e a criação de animais. Mas inventar a agricultura e a criação de animais significa que se começa a confinar em parte, constrói-se casas duras para que durem mais tempo do que os abrigos temporários dos nómadas. Está em aldeias sedentárias e começa a viajar apenas alguns quilómetros por dia para ir cultivar os seus campos, alimentar os seus animais, ordenhá-los, etc.

Estes agrupamentos de populações favorecem as epidemias?

Doenças sempre existiram, temos a prova disso graças aos vestígios nos esqueletos. Estavam presentes entre os caçadores-colectores na época do Paleolítico. Mas viviam em grupos nómadas de 20-30 pessoas num planeta povoado por um a dois milhões de pessoas, pelo que o risco de contágio era baixo. No entanto, assim que os seres humanos estão confinados a aldeias onde vivem nas proximidades de animais domésticos que podem ser vectores de zoonoses – doenças que podem ser transmitidas dos animais para os seres humanos – tais como brucelose nos ovinos ou tuberculose nos bovinos, desenvolvem-se epidemias. Para não mencionar as doenças transmitidas por animais comuns, tais como ratos ou pombos. Ao agruparem-se, os seres humanos aproximaram-se também dos animais selvagens, também portadores de doenças, tais como morcegos para Covid-19. A primeira epidemia de que temos registo data do século V a.C. e é a “peste de Atenas”, que provavelmente não era de todo uma praga. Depois, o desenvolvimento dos centros urbanos andou de mãos dadas com o desenvolvimento do comércio. Foi assim que um navio cheio de tecido infestado de bacilos de peste atracou em 1720 em Marselha, onde a doença dizimou posteriormente metade da população apesar da grave contenção da área.

Contenção, como aqui em Montmartre a 12 de Novembro, acabaria por ser apenas o culminar de uma pesada tendência dentro das sociedades humanas.'aboutissement d'une tendance lourde au sein des sociétés humaines.
Contenção, como aqui em Montmartre a 12 de Novembro, acabaria por ser apenas o culminar de uma pesada tendência dentro das sociedades humanas. – JEANNE ACCORSINI/SIPA

No seu artigo sobre este tema para a revista “L’Histoire”, percebemos que quanto mais nos confinamos, mais trabalhamos. Por exemplo, os nómadas trabalham apenas algumas horas para obterem o seu sustento…

É certamente um pouco paradoxal porque de facto os agricultores e as sociedades que evoluíram a partir deles, incluindo tu e eu, trabalham mais do que os caçadores-colectores. Claro que depende do ambiente natural, há lugares onde é muito mais fácil caçar, pescar e reunir do que outros, mas é verdade que no geral é mais difícil. Só que os humanos não se aperceberam disso porque a revolução neolítica, a invenção da agricultura e da criação de animais, teve lugar ao longo de séculos, mesmo milénios. No início começa-se a favorecer certas plantas selvagens e depois pouco a pouco começa-se a plantar algumas, mas continua-se a colher. Ao mesmo tempo, captura-se alguns pequenos animais que se começa a domar mas que se continua a caçar. Depois, ao longo das gerações, acaba-se por ser quase 100% agricultor/agricultor sedentário. Penso que isso é algo que tem sido insensível para os seres humanos. E se voltarmos ao Homo sapiens 300.000 anos, a agricultura e a pecuária ocupam apenas 4% desse período, então é muito recente.

Há ainda sociedades não definidas?

Há algumas sociedades pastoris, nómadas de pastoreio por razões ambientais: pastores de renas no extremo norte, tuaregues ou semelhantes no baixo Saara, nómadas nas estepes da Mongólia… Mas estas encontram-se em zonas onde a agricultura é muito mais difícil. Os últimos caçadores-colectores, praticamente não há mais nenhum. Há alguns bosquímanos no deserto do Kalahari na África do Sul, mas agora são quase atracções turísticas. Há também a famosa ilha indiana de North Sentinel, no arquipélago de Andaman, onde ainda existem alguns caçadores-colectores que recebem com flechas aqueles que lá desembarcam. Caso contrário, há sociedades que ainda estão organizadas de forma tradicional em pequenas aldeias sedentárias. Ao contrário desta última, nas cidades, movimenta-se ainda menos porque nem sequer tem de sair da aldeia para ir buscar comida porque tem comerciantes e lojas para se abastecer. Com as cidades vêm todo o tipo de profissões completamente sedentárias, os artesãos, o clero, a polícia, toda a administração que tem de gerir uma cidade ou um estado.

Por isso as nossas sociedades estão confinadas sem realmente o saberem…

P>Vamos tomar a questão do turismo, que, a priori, se opõe a este confinamento progressivo. No entanto, por um lado o turismo não diz respeito a toda a gente no planeta, e mesmo em França, há 40% das pessoas que nunca vão de férias. Por outro lado, com a realidade virtual, que está a ser aperfeiçoada ano após ano, é óbvio que no futuro poderemos viajar das nossas poltronas com uma percepção completa dos volumes, cheiros, etc. Mesmo o turismo será cada vez mais uma parte das nossas vidas. Até mesmo o turismo se tornará cada vez mais sedentário. Há também o exemplo das guerras que são travadas à distância por zangões, mísseis.

Simplesmente nos ginásios, está-se numa sala onde se faz ciclismo, escalada, remo, até se pode fazer isso em casa se se tiver um pouco de espaço. Mas estas actividades físicas, que podem ser realizadas no exterior, estão em grande parte confinadas, mesmo fora do confinamento. Na indústria de serviços, o teletrabalho está a crescer e é mais barato para todos. Durante o encerramento, algumas pessoas ficaram felizes por ficar em casa, mas depende se tem o espaço, o equipamento, etc. O que é tranquilizador, contudo, é que muitas vezes nada bate o contacto humano para um certo número de actividades profissionais, não apenas a máquina de café mas também reuniões presenciais e não apenas em Zoom.

Há excepções?

Sim. Por exemplo, e isto faz parte da crise dos “Coletes Amarelos”, algumas pessoas são obrigadas a viver cada vez mais longe do centro urbano e a entrar na cidade para trabalhar. De facto, existem excepções, mas parece-me ser uma forte tendência. Podemos imaginar que uma grande parte dos trabalhos que são actualmente indispensáveis e que obrigam as pessoas a abandonar as suas casas poderia, se estendermos um pouco as coisas, ser feita por máquinas, já existem aspiradores robotizados, e estamos a começar a prever a entrega de mercadorias por zangão. Já em 1951, na sua novela Foundation, Isaac Asimov previu sociedades confinadas: “Quando nascemos numa cela, crescemos num corredor, trabalhamos numa cela e tiramos férias num solário apinhado, para irmos para o ar livre com o céu acima da cabeça, pois a nossa única perspectiva é arriscar um colapso nervoso, muito simplesmente. “.** No entanto, muitas vezes os escritores de ficção científica vislumbram desenvolvimentos históricos posteriores.

*Tractos de Crise (N.º 35) – Pré-histórias de contenção, por Jean-Paul Demoule (Gallimard, Abril 2020)

**Fundação, por Isaac Asimov (Folio SF), p. 29

Propostas recolhidas por Guillaume Novello

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