Crispr, tesoura genética mágica ou um perigo parahumanidade?

O que tem em comum um cego que recupera a visão e uma vaca sem cornos? Crispr. Um acrónimo que soa como um rufo sueco mas ao qual o público em geral pode ter de se habituar. Do seu nome completo Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, esta tecnologia de edição de genes tem o potencial de mudar a própria concepção de vida.

“Crispr permite a um cientista modificar os detalhes do gene de uma célula”, diz Paul Dabrowski, co-fundador da Synthego, uma das empresas americanas mais avançadas neste campo, à France 24. Veio à mostra de inovação parisiense VivaTech, que decorre de 15 a 17 de Junho, para divulgar a tecnologia. É uma técnica de corte genético: uma enzima (Cas9) é utilizada como tesoura para alterar um gene alvo. Um pedaço de molécula, RNA, ajuda a guiar a enzima como um GPS.

Da luta contra o cancro ao renascimento do mamute

A descoberta de Crispr em 2012 pela francesa Emmanuelle Charpentier e pela americana Jennifer Doudna trouxe-lhes reconhecimento científico imediato. Receberam vários prémios e foram mesmo considerados para um Prémio Nobel da Química. O entusiasmo por esta tecnologia é compreensível: é mais eficaz, simples, rápida e menos cara do que as alternativas, aponta um relatório da Assembleia Nacional publicado no início de 2016. As aplicações na luta contra doenças genéticas são óbvias: “Estamos apenas a alguns anos, por exemplo, de tratamentos promissores para superar certos cancros em teste”, observa Paul Dabrowski. Milhares de laboratórios em todo o mundo apreenderam a tecnologia.

A diversidade da sua investigação demonstra o alcance do que é possível. Uma empresa americana criou uma vaca sem cornos, enxames de mosquitos foram tornados imunes à malária através da remoção de um gene, e ratos cegos foram capazes de recuperar parte da sua visão. Uma equipa em Harvard está mesmo a trabalhar num projecto para recriar um mamute usando o Crispr. “Penso que ainda não compreendemos totalmente a extensão total das mudanças que esta tecnologia pode trazer”, entusiasma o empresário americano.

Investidores também estão a interessar-se profundamente. Synthego, a empresa de Paul Dabrowski que oferece uma plataforma para simplificar o processo de criação das “facas” Crispr, angariou assim 47 milhões de dólares em Janeiro de 2017. Porque este corte genético promete, de facto, amanhãs económicos que cantam, especialmente na agricultura.

Nos Estados Unidos, um cientista descobriu assim, em Abril de 2016, uma forma de prolongar a vida e o consumo de cogumelos botão, enquanto que os chineses melhoraram o valor nutricional do arroz. A cereja no bolo é que Crispr não introduz genes estranhos no organismo e o resultado pode, portanto, escapar ao rótulo muitas vezes infame de OGM. As autoridades sanitárias americanas decidiram fazê-lo no caso do cogumelo branco. Uma verdadeira bênção para gigantes agroquímicos como Monsanto.

Na Europa, a pílula é muito mais difícil de engolir. O caso destes “OGM escondidos”, como lhes chamam os seus detractores, foi remetido para o Tribunal de Justiça da União Europeia em Outubro de 2016. De facto, como a tecnologia Crispr apenas altera genes já presentes, a modificação é mais difícil de detectar. Espera-se que o tribunal decida nos próximos meses.

“Armas de Destruição Maciça”

Agricultura é apenas um exemplo em que esta tecnologia enfrenta resistência. A questão ética nunca está muito distante. Paul Dabrowski concorda: “Não creio que o debate ético necessário tenha ainda sido conduzido, e as normas têm de ser acordadas rapidamente. Sem isto, nada impediria, por exemplo, que o mundo militar se aproveitasse dele para criar soldados geneticamente melhorados ou para trabalhar em armas bioquímicas mortais.

Um cenário que não é ficção científica. Em Novembro de 2016, os consultores científicos de Barack Obama alertaram a administração dos EUA para a possibilidade de utilizar “Crispr para criar vírus que possam alterar, inibir ou activar genes nas vítimas para causar disfunções corporais”. Mais directo na sua redacção, James Clapper, quando era director da CIA, acrescentou “modificação genética” à lista de armas de destruição maciça, no seu relatório Ameaças aos Estados Unidos de 2016.

A tentação de aumentar a dotação genética é outra armadilha. Actuando cedo na vida, é teoricamente possível fazer modificações genéticas transmissíveis dentro de uma família. “Penso que podemos facilmente chegar a um consenso de que esta tecnologia não deve ser utilizada para acrescentar funções (mais inteligência, poder, etc.), mas apenas para as remover em casos terapêuticos”, diz Dabrowski. Nem todos concordam. Uma equipa de investigadores chineses tentou imunizar os embriões contra uma doença sanguínea. A experiência falhou, mas provocou uma ampla controvérsia científica sobre a utilização de embriões em tais pesquisas.

Unexpected mutations

Mas mesmo sem ir tão longe, Crispr também arrisca o aparecimento de medicamentos a dois níveis. Os ricos poderiam ser protegidos contra uma série de doenças potencialmente fatais, enquanto que os pobres não teriam acesso. Para Paul Dabrowski, este perigo é muito mais iminente do que uma militarização da tecnologia. “Precisamos de assegurar que os usos sejam acessíveis a todos, por exemplo, através de intervenções reembolsadas pela segurança social”, acredita ele.

A tecnologia também não é infalível. Um dos principais desafios é evitar que a alteração genética conduza a consequências não intencionais. Erros foram cometidos nos primeiros tempos, suscitando apelos à prudência por parte da comunidade científica. Um estudo da Universidade de Columbia publicado em Maio de 2017 adverte sobre “centenas de mutações inesperadas” que o corte de genes pode causar. “Fizemos enormes progressos, mas a técnica precisa de se tornar ainda mais precisa e fiável antes de poder ser aplicada aos humanos”, reconhece Paul Dabrowski.

Para 150 ONG, que lançaram um apelo a uma moratória sobre a utilização do Crispr, é sobretudo urgente esperar até que o debate se realize e que seja estabelecido um quadro jurídico. Paul Dabrowski acredita que a investigação não deve ser excessivamente restringida, caso contrário “o perigo é que surja um mercado negro”. Como a tecnologia existe e é promissora, há uma boa hipótese, segundo este empresário, de que no caso de uma proibição, pessoas sem escrúpulos continuem a investigação clandestinamente e ofereçam estas “tesouras milagrosas” a um preço elevado fora de qualquer controlo.

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