Subjecto e chave de resposta Bac S 2011 Philosophy subject 1

A chave de resposta

Correcção para o bac S A cultura desnaturaliza o homem?

No sentido mais lato, cultura refere-se a tudo o que o homem adquire através do intermediário de um determinado grupo social, tudo o que é transmitido através da língua, costumes, educação e mesmo -implicitamente- gestos, atitudes ou regras de comportamento. É muito difícil determinar que parte pertence a esta cultura adquirida e que parte pertence a uma natureza inata, uma hereditariedade com contornos mal definidos. Dizer que a cultura desnaturaliza o homem é de facto supor uma natureza primária, uma essência do homem que o distinguiria dos outros seres na natureza. A palavra natureza significa ou o que precede qualquer intervenção humana no mundo, ou as características comuns a todos os homens, ou a essência, a identidade específica de um indivíduo. Na oposição entre natureza e cultura, a questão é saber se existe uma passagem de um para outro ou se o estado da natureza é uma ficção que permite aos homens deplorar um ideal que talvez nunca tenham conhecido, mas que seria como o negativo da condição humana. Neste sentido, a palavra “desnaturalizar” significa um processo que consiste em retirar ao homem algo que ele possui de uma forma constitutiva. Resta saber se é um aspecto pejorativo como a animalidade ou a força das paixões, a violência que o homem partilha com outros seres da natureza, ou se a cultura tira ao homem uma natureza “boa”, ou seja, corrompe-o, afasta-o daquela inocência original que algumas pessoas podem ter relutantemente elogiado. Em ambos os sentidos da palavra “desnaturar”, é uma questão de pensar num processo, uma história que faz com que o homem se constitua progressivamente através da herança, transmissão e intercâmbio entre indivíduos, grupos e sociedades. Isto significa que a fronteira entre o natural e o cultural não está estabelecida e que a própria característica do homem, a sua natureza, não é ter uma.

p>Esboço possível:
A natureza e a cultura de oposição
Cultura é tudo o que pertence a uma herança, tudo o que é adquirido através da aprendizagem, educação. A transmissão é feita ou dentro de um grupo através de uma língua. Ex. Arte, religião, culinária, técnicas, direito, regras de educação… A natureza é tudo o que é inato e transmitido como hereditariedade biológica. Ex. Determinação genética. Falamos de uma natureza humana no singular como o único determinante de existências tão diversas no espaço e no tempo.
Uma desnaturação
A oposição sendo estabelecida pelas definições, devemos estudar o significado da palavra “desnaturação”. Supõe em todos os casos uma mudança de natureza, uma remoção ou contradição de um primeiro estado. Agora este estado de natureza ou é “bom”, é para o homem um estado de inocência, de felicidade em relação a esta origem benéfica, esta mãe nutritiva chamada Natureza. Este primeiro significado é ilustrado por mitos, lendas, representações (“o bom selvagem”, “a era dourada”, “paraíso”…) que, paradoxalmente, são transmitidos pela cultura. O segundo sentido de desnaturação entenderia a natureza como fundamentalmente má para o homem, hostil, violenta, teria de recorrer à astúcia como no mito de Prometeu (Platão, Protágoras) para se destacar dela e se fazer “mestre e possuidor” de acordo com a fórmula de Descartes.

Perfectibilidade
Rousseau resolve o debate entre um homem bom, inocente e feliz no estado de natureza, que ele usa no discurso sobre a origem e fundamentos da desigualdade entre homens como uma ficção metodológica, e o homem violento, “lobo a homem” do seu oponente Hobbes. Para Rousseau, o homem não é bom nem mau por natureza, ele é perfeccionável; este é o significado que poderia ser dado a esta desnaturação. O homem está inacabado, por isso é capaz de fazer o melhor e o pior. A desnaturalização não tem um significado pejorativo mas é parte de um processo que faz do homem o que ele é, um ser de cultura. O caso individual da criança selvagem estudado por Lucien Malson e filmado por François Truffaut pode ser utilizado para ilustrar esta falta de educação transmitida a uma criança no momento certo. O estado “selvagem”, no entanto, abre devidamente um filho do homem a todas as possibilidades.
O paradoxo: a cultura é contra a natureza? A multiplicidade de formas de cultura
No assunto trata-se de cultura no agrupamento singular de todas as formas de cultura. No entanto, hoje temos de reconhecer uma diversidade de formas de cultura graças às ciências humanas. É necessário pensar numa multiplicidade de formas culturais sem qualquer hierarquia, sem superioridade, por exemplo, da arte sobre a ciência ou do direito sobre a religião. Toda a aprendizagem é uma aquisição de cultura da mesma forma que a escola, o livro ou a educação académica. Possuir uma cultura não significa ser culto.
A diversidade de culturas: A contribuição da etnologia
Já que não há uma forma de cultura a ser favorecida na aprendizagem de cada pessoa, não há uma cultura melhor do que outra. Isto é demonstrado em particular pelo etnólogo Claude Lévi-Strauss, que estuda várias civilizações, enfatiza a sua diversidade e a ausência de uma escala de valor pela qual possam ser julgados. Dizer que a cultura se opõe à natureza é assumir um estado de natureza que poderia ser observado na realidade. Contudo, as sociedades que estão mais distantes no espaço e no tempo da nossa também têm uma cultura, por muito diferente que seja em relação aos nossos critérios de julgamento.
A natureza do homem é não ter nenhuma
O pensamento sobre a natureza tem estado frequentemente ligado a uma forma de sociedade que é anterior ao Estado. A família, a aldeia, a tribo. Agora, como mostra Rousseau, o homem isolado não existe. A criança nasce no seio de uma mãe e os cuidados necessários já fazem parte da sua educação. Merleau Ponty afirma que “tudo é natural, tudo é convencional” no homem, não há passagem de um estado para outro como se poderia pensar. Do mesmo modo, para uma sociedade, os critérios ambíguos de civilização e política não são constitutivos de uma cultura. O estado da natureza é apenas uma hipótese, porque a natureza não supre todas as necessidades do homem; ele deve inventar tudo.
Conclusão:
O homem é um ser de cultura. A cultura não desnaturaliza o homem, dá-lhe a sua própria natureza, aquilo que o distingue dos outros seres vivos, aquilo que o caracteriza. O homem faz-se através de uma diversidade cultural extremamente rica e inesgotável. Ele não é um animal desnaturado porque é o que se torna desde o nascimento, ele é perfeccionável

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